Parque Papa Francisco: eventos sim, mas com segurança, condições e respeito por quem aqui vive

O Parque Papa Francisco pode e deve ser um espaço capaz de receber grandes acontecimentos culturais e musicais. Trazer artistas internacionais a Loures, criar nova oferta cultural e atrair milhares de pessoas ao concelho pode ser positivo. Mas a dimensão dos eventos que têm vindo a realizar-se exige que existam infraestruturas, acessos, transportes e medidas de segurança adequadas e que a sua realização seja compatível com a qualidade de vida das populações que vivem na envolvente.

Os acontecimentos dos últimos meses levantam sérias dúvidas sobre se essas condições estão hoje plenamente asseguradas.

 

No concerto de David Guetta, a 2 de agosto, que reuniu cerca de 35 mil pessoas, foram relatadas esperas que chegaram a uma hora e meia para abandonar a zona, milhares de pessoas concentradas na ponte pedonal, falta de informação ao público e situações de assistência médica. A própria promotora reconheceu problemas na saída e anunciou que trabalharia com a Câmara Municipal de Loures, a PSP e a Proteção Civil para identificar e corrigir os pontos críticos.

Menos de dois meses depois, no concerto de Black Coffee, voltaram a ser divulgadas imagens e relatos de grandes concentrações nas zonas de saída, pressão sobre o cais ferroviário e pessoas que terão atravessado a linha do comboio, além de fortes constrangimentos rodoviários na Bobadela. Estes últimos episódios precisam de ser integralmente apurados, mas são suficientemente graves para exigir respostas sobre as condições de dispersão de dezenas de milhares de pessoas no final destes eventos.

 

Importa, por isso, perceber que problemas foram identificados depois do concerto de David Guetta, que alterações foram efetivamente implementadas e por que razão voltaram a verificar-se situações preocupantes no final de um grande evento no mesmo local.

 

Esta discussão é ainda mais relevante porque alguns dos acessos previstos para o Parque continuam por concretizar. A Câmara anunciou anteriormente novos acessos e ligações pedonais; em setembro de 2026 foi lançado um concurso de 360 mil euros para elaborar o projeto de execução da futura passagem ciclo-pedonal sobre o IC2 que ligará o Parque Papa Francisco ao passadiço ribeirinho da Bobadela. Ou seja, uma infraestrutura de acessibilidade considerada relevante para o Parque encontra-se ainda em fase de projeto.

 

Ao mesmo tempo, têm aumentado as queixas relativas ao impacto do ruído. O presidente da Junta de Freguesia do Parque das Nações dirigiu uma carta à Câmara de Loures relatando a propagação das baixas frequências a vários quilómetros do recinto e defendendo medidas técnicas de minimização do ruído, melhor planeamento dos transportes e estacionamento e uma utilização do espaço que tenha em conta quem vive na envolvente.

 

Também aqui, o caminho não deve ser colocar moradores e cultura em lados opostos. É possível realizar grandes eventos e, simultaneamente, estabelecer regras, utilizar tecnologia adequada e fiscalizar o seu cumprimento para reduzir o impacto nas zonas residenciais.

 

Há ainda uma dimensão que não pode ser esquecida. O Parque Papa Francisco não foi apresentado apenas como um recinto para concertos. A própria Câmara o definiu como um espaço de lazer e convívio para as famílias, prevendo restauração, parques infantis e outros equipamentos desportivos. Ao mesmo tempo, assumiu a intenção de o transformar numa referência para grandes eventos musicais e festivais. Estas duas vocações podem coexistir, mas nenhuma deve apagar a outra.

 

O Bloco de Esquerda defende, por isso, que a Câmara Municipal de Loures deve garantir, antes da consolidação de uma programação regular de megaeventos no Parque Papa Francisco:

 

  • uma avaliação técnica dos eventos já realizados, tornando públicos os problemas identificados na segurança, acessos, evacuação e mobilidade e as medidas adotadas para os corrigir;
  • um plano de mobilidade e segurança adequado à lotação de cada evento, articulado com PSP, Proteção Civil, Infraestruturas de Portugal, operadores de transporte e freguesias envolventes, garantindo percursos de saída seguros, reforço do transporte público e impedindo situações de risco junto à ferrovia;
  • monitorização acústica efetiva, incluindo nas zonas residenciais afetadas, com atenção específica às baixas frequências, definição de horários e limites, utilização de soluções técnicas para direcionamento do som e divulgação dos resultados das medições;
  • articulação permanente com as populações e as freguesias afetadas em Loures e Lisboa, criando também um canal claro para comunicação de ocorrências;
  • a concretização dos equipamentos e infraestruturas de lazer previstos para o Parque, garantindo que este continua a ser um espaço público de utilização quotidiana e não apenas um recinto para grandes eventos.

 

O debate não é entre ter ou não ter concertos. Loures pode receber grandes eventos. Mas um evento com dezenas de milhares de pessoas tem de ser acompanhado por condições à mesma escala.

 

O Parque Papa Francisco deve poder receber música, cultura e grandes acontecimentos, mas deve fazê-lo com segurança para quem participa, respeito por quem vive nas freguesias envolventes e sem perder a função para a qual também foi criado: devolver a frente ribeirinha à população e criar um verdadeiro parque público para usufruto de todos.